O home office integral, que se popularizou durante a pandemia, se tornou uma exceção no mercado de trabalho brasileiro. É o que aponta um levantamento da Robert Half obtido com exclusividade pelo Estadão. O estudo mostra que a maioria das empresas adota o modelo híbrido ou o presencial, com uma média de três a cinco dias por semana no escritório, dependendo do setor.
As áreas de construção civil e engenharia lideram a presencialidade, com equipes trabalhando, em média, 4,8 dias por semana no escritório. Já o setor de serviços oferece a maior flexibilidade, com média de 3,3 dias presenciais.
Vitor Silva, diretor de mercado da Robert Half, afirma que o retorno gradual aos escritórios ainda não se estabilizou. Ele acrescenta que o trabalho 100% remoto não é mais uma alternativa, nem mesmo para funções corporativas. “O remoto full hoje é uma exceção da exceção”, disse.
A tendência é que o home office se torne cada vez mais raro nas vagas de emprego, sendo viável apenas para empresas que já nasceram remotas ou que não possuem escritório na operação local. “Não vemos nenhum movimento que indique uma reversão desse cenário”, observou Silva. Atualmente, as vagas de home office integral representam apenas 3% das oportunidades dos clientes atendidos pela consultoria.
A pesquisa indica que as empresas buscam um ponto de equilíbrio. A decisão sobre a quantidade de dias em casa não deve ser tomada por modismo, mas de forma estratégica. “As empresas mais maduras são aquelas que tomam essa decisão com base em dados. Não adianta olhar para uma companhia e copiar o modelo se a realidade do seu negócio é completamente diferente”, ressaltou o diretor.
O estudo sugere que tanto o excesso quanto a falta de cultura presencial podem gerar problemas. Modelos mais flexíveis podem comprometer a produtividade e a velocidade de resposta em alguns setores. Já a exigência de presença sem justificativa tende a prejudicar a retenção de talentos. “Não adianta ter um modelo superflexível que não conversa com a realidade da operação. Mas também não adianta exigir quatro ou cinco dias presenciais sem conseguir explicar o porquê”, avaliou Silva.
Segundo a pesquisa, setores como produção, infraestrutura e atividades de campo, como construção, mineração, energia e indústria, exigem maior presença física. Já as empresas de serviços conseguem oferecer mais flexibilidade em parte das funções corporativas. Na indústria, por exemplo, a média é de 3,3 dias presenciais para áreas corporativas e 4,9 dias para operações. Na logística, a diferença também é alta: 3,6 dias para equipes administrativas e 4,6 dias para operações.
A pesquisa aponta dois fatores que ajudam a definir o modelo de trabalho: o grau de previsibilidade da operação e o nível de interação entre os profissionais. Negócios mais previsíveis e com menor dependência de colaboração presencial podem oferecer jornadas mais flexíveis.
Apesar disso, a flexibilidade ainda é um diferencial competitivo. Dados da Robert Half mostram que 52% dos profissionais mudariam de emprego se a empresa reduzisse a flexibilidade. Além disso, 54% dos gestores reconhecem que esse fator influencia a atração e a retenção de talentos. O executivo afirmou que essa demanda não se restringe aos mais jovens. “Existe a percepção de que apenas a geração Z prioriza flexibilidade, mas nossos estudos mostram que essa expectativa também aparece entre profissionais mais experientes. Não é uma questão geracional, é uma expectativa que se espalhou pelo mercado”, concluiu.
