Se todos os brasileiros que vivem na Finlândia se reunissem, não ocupariam uma arquibancada inteira de um estádio de futebol. Eles somam 2.611 pessoas, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores. No entanto, essa situação pode mudar nos próximos anos.
O governo finlandês informa que as empresas do país planejam contratar 140 mil trabalhadores até 2035 para a área de tecnologia. Brasileiros estão entre os principais públicos para essas vagas, junto com indianos e vietnamitas.
Para atrair esses profissionais, a Finlândia quer acelerar a concessão de vistos. O objetivo é reduzir o prazo de emissão para até duas semanas quando o estrangeiro tiver uma oferta de emprego. Além disso, o país negocia com o Brasil um acordo bilateral de previdência social.
Esse acordo permitiria que brasileiros que trabalharem na Finlândia mantenham o direito à aposentadoria no Brasil se decidirem voltar. A Finlândia lidera a lista dos países considerados mais felizes do mundo.
O plano de preencher 140 mil vagas está ligado a duas mudanças no mercado de trabalho local. A primeira é o crescimento do setor de tecnologia, com o surgimento de startups e empresas que buscam custos menores do que em outras regiões da Europa.
A segunda é a dificuldade de contratar trabalhadores da Rússia e da Ucrânia, que antes eram uma parte importante da mão de obra estrangeira. A guerra entre os dois países, que já dura quatro anos, afetou esse fluxo.
Quem explica é Laura Lindemann, diretora do Work in Finland, órgão do governo que promove o mercado de trabalho e atrai estrangeiros. Segundo ela, a avaliação para buscar brasileiros considerou a presença finlandesa no Brasil e as conexões já existentes.
Há um terceiro fator importante: a Finlândia precisa de imigração para evitar que sua população diminua. Nove em cada dez municípios do país registram mais mortes do que nascimentos.
Estima-se que 1 milhão de finlandeses se aposentem nos próximos anos. Esse número é alto para um país com menos de 6 milhões de habitantes.
Atualmente, há quase 800 vagas abertas listadas no portal do Work in Finland, mas também há oportunidades diretas nos sites das empresas. As áreas mais buscadas envolvem ciências naturais, como matemática, física e química.
Essas áreas são importantes para o setor de deep tech, que concentra novos negócios no país. O termo se refere a inovações que surgem de pesquisa e são comercializadas, como inteligência artificial, computação quântica e semicondutores.
Empresas como IQM, Bluefors e SemiQon atuam nesse campo e estão em expansão. No país, pesquisadores de doutorado são tratados como profissionais e muitas vezes são funcionários das universidades.
O setor de desenvolvimento de software também é valorizado, mas passa por transformações devido ao avanço da inteligência artificial. Por isso, são necessárias habilidades que vão além do básico.
Todas as posições exigem domínio do inglês. Para o visto de trabalho, não há um nível mínimo padronizado de proficiência, mas é preciso conseguir se comunicar com fluidez.
O finlandês e o sueco, línguas oficiais do país, são considerados diferenciais, mas não obrigatórios. Espera-se, porém, que o profissional tenha interesse em aprender finlandês depois da mudança, principalmente se quiser cargos de liderança no futuro.
A Finlândia tem uma taxa de desemprego de quase 11%. De acordo com Laura Lindemann, muitos desempregados não se qualificam para as vagas abertas, pois não têm formação em áreas contemporâneas, como computação quântica.
Os empregadores precisam primeiro verificar se há talentos disponíveis na Finlândia ou na União Europeia. Só podem contratar de fora se não encontrarem ninguém localmente.
No caso de pesquisadores, não há essa restrição, pois as empresas dependem de talentos internacionais. Trabalhadores estrangeiros com competências diferentes podem ajudar o país a superar seus desafios.
Lindemann afirma que, em um momento de alto desemprego, o país precisa de crescimento econômico, e para isso precisa recrutar os melhores talentos.
A Finlândia não espera que os brasileiros deixem seu país sem oferecer algo em troca. A diretora do Work in Finland lista diferenças no mercado de trabalho que proporcionariam um equilíbrio melhor entre vida pessoal e profissional.
Uma delas é a jornada de trabalho, que em geral é de 37,5 horas semanais. Isso contrasta com a carga comum no Brasil.
